A cicatriz no pescoço já foi considerada um “estigma inevitável” para quem precisava enfrentar uma tireoidectomia ou a retirada de uma glândula salivar. Durante décadas, a extensão da incisão era ditada pela necessidade de uma exposição ampla do campo operatório, garantindo que estruturas vitais, como o nervo laríngeo recorrente ou as glândulas paratireoides, fossem preservadas sob visão direta. No entanto, a cirurgia de cabeça e pescoço atravessa uma era de refinamento técnico onde o binômio “exposição adequada” e “estética preservada” finalmente encontrou um equilíbrio funcional. Hoje, quando discutimos acessos cirúrgicos, não falamos apenas de vaidade. Falamos de trauma tecidual. Um acesso menor significa, tecnicamente, menos descolamento de retalhos cutâneos, menor espaço morto para acúmulo de secreções (seromas) e uma resposta inflamatória sistêmica reduzida.
O salto técnico: da incisão de Kocher ao acesso transoral A clássica incisão de Kocher, aquele corte horizontal na base do pescoço, ainda tem seu papel, especialmente em bocios volumosos ou esvaziamentos cervicais complexos. Contudo, técnicas como a MIVAT (Tireoidectomia Videoassistida Minimamente Invasiva) permitiram reduzir cortes de 6 a 8 centímetros para meros 2 centímetros. Através de opticas de alta definição, conseguimos uma magnificação da anatomia que o olho nu, por vezes, não alcança. O ápice dessa evolução é a TOETVA (Tireoidectomia Endoscópica Transoral por Acesso Vestibular). Imagine realizar a retirada da tireoide sem nenhuma cicatriz externa. O acesso é feito através da mucosa do lábio inferior. Tecnicamente, criamos um túnel subplatismal até o compartimento central do pescoço.
O paciente sai da sala de cirurgia sem curativos cervicais, e o risco de queloides — uma preocupação real em peles com tendência a cicatrização hipertrófica — é virtualmente zero. O papel da tecnologia na segurança do paciente Muitos pacientes questionam se “operar por um buraquinho” não aumenta o risco de lesões. A resposta reside na monitorização neurofisiológica intraoperatória. Durante a dissecção de um tumor de parótida, por exemplo, utilizamos eletrodos que mapeiam os ramos do nervo facial em tempo real. Se o cirurgião se aproxima demais de uma fibra nervosa que controla o sorriso ou o fechar dos olhos, o equipamento emite um sinal sonoro. Isso nos dá a confiança necessária para trabalhar através de acessos reduzidos, como a incisão de ritidoplastia (semelhante à de um lifting facial), que fica escondida atrás da orelha. Cenário Prático:
A gestão do carcinoma papilífero Considere um paciente com um nódulo de 1,5 cm, Bethesda VI (maligno), localizado no lobo direito da tireoide. Há dez anos, esse paciente teria uma cicatriz transversa evidente. Hoje, se o perfil clínico permitir, podemos optar por uma tireoidectomia parcial via TOETVA ou uma microincisão assistida. No pós-operatório imediato, a redução do uso de drenos e a diminuição da dor por tração muscular permitem que esse indivíduo retorne às suas atividades em um tempo significativamente menor. Além da técnica, a biologia do tumor dita o caminho. Em casos de carcinoma epidermoide de boca ou orofaringe, onde a agressividade é maior, a cirurgia reconstrutiva com retalhos microcirúrgicos entra em cena. Mesmo nesses casos complexos, o foco mudou: não buscamos apenas a cura oncológica, mas a reabilitação da deglutição e da fala, minimizando as sequelas estéticas e funcionais.