A ciência por trás do arrepio: por que o frio incomoda alguns dentes e como silenciar essa sensibilidade

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A sensação é quase universal: uma colherada de sorvete ou um gole de água gelada e, subitamente, um “choque” agudo percorre a mandíbula, cessando quase tão rápido quanto começou. Embora muitos pacientes descrevam esse fenômeno como uma dor passageira, a odontologia trata a hipersensibilidade dentinária cervical como um desequilíbrio mecânico e biológico complexo. Para entender por que o frio castiga certas bocas, precisamos olhar para o dente não como uma pedra maciça, mas como um sistema hidráulico dinâmico.

O coração dessa questão reside na Teoria Hidrodinâmica de Brännström. Imagine que a dentina — a camada sob o esmalte — é composta por milhares de canais microscópicos chamados túbulos dentinários. Estes tubos estão cheios de fluido e conectam a superfície externa diretamente à polpa dentária, onde vivem os nervos. Quando o esmalte se desgasta ou a gengiva retrai, esses túbulos ficam expostos. O estímulo térmico (o frio) causa uma movimentação súbita desse fluido interno, que por sua vez deforma as terminações nervosas na polpa, gerando o sinal de dor imediata. A anatomia do desgaste A exposição da dentina raramente acontece por um único motivo.

Frequentemente, vejo em consultório o que chamamos de lesões cervicais não cariosas (LCNC). Elas surgem de um trio de fatores: Abrasão: O uso de escovas de cerdas duras ou força excessiva durante a higiene oral. É o clássico “querer limpar demais” que acaba lixando a proteção natural do dente. Erosão: O consumo frequente de substâncias ácidas — refrigerantes, sucos cítricos ou mesmo o refluxo gástrico — que desmineraliza quimicamente o esmalte. Abfração: Forças oclusais anormais, típicas do bruxismo, que causam microflexões no colo do dente, levando ao desprendimento de prismas de esmalte na região da linha da gengiva. Em um cenário clínico típico, recebi recentemente um paciente de 34 anos, corredor de maratonas, que sofria de sensibilidade aguda. A análise revelou que sua dieta rica em isotônicos ácidos, combinada com o hábito de apertar os dentes durante o esforço físico, criou pequenas “valas” junto à gengiva. O tratamento não foi apenas fechar o dente, mas reequilibrar sua biomecânica.