Carcinoma epidermoide: entendendo a “pele” que reveste as mucosas e seus desafios

Imagine, por um momento, a delicadeza do revestimento interno da sua boca. Se você passar a língua pela parte interna da bochecha agora, sentirá uma textura lisa, úmida e contínua. Essa “pele” interna, que chamamos de mucosa, é composta por células epiteliais pavimentosas — imagine-as como pequenas escamas ou azulejos perfeitamente encaixados, protegendo os tecidos mais profundos. O carcinoma epidermoide (ou espinocelular) nasce justamente quando um desses “azulejos” decide ignorar as regras do corpo e começa a se multiplicar de forma desordenada. Na minha rotina como cirurgião de cabeça e pescoço, recebo muitos pacientes que chegam ao consultório com uma queixa aparentemente banal: uma afta que não cicatriza há mais de três semanas. Lembro-me de um paciente, um professor de história, que ignorou uma pequena ferida na borda da língua por meses, acreditando que fosse trauma da prótese dentária.

Quando finalmente decidimos pela biópsia, o diagnóstico de carcinoma epidermoide já exigia uma intervenção mais robusta. O grande desafio desse tipo de tumor é que ele é um “mestre do disfarce” nas fases iniciais. Ele pode surgir como uma mancha esbranquiçada (leucoplasia), uma área avermelhada ou uma úlcera indolor. Como a boca e a garganta são áreas de alta sensibilidade, qualquer alteração na arquitetura dessas células pode impactar funções vitais: a fala, a deglutição e até a respiração. Onde ele se esconde e como se manifesta? O carcinoma epidermoide é responsável por mais de 90% dos cânceres que afetam a região da cabeça e do pescoço. Ele não escolhe apenas a boca; pode se instalar na laringe, alterando o timbre da voz e causando aquela rouquidão persistente que muitos confundem com um resfriado que “não passa”. Pode também surgir na faringe, tornando o ato de engolir um alimento sólido — a disfagia — um processo desconfortável ou doloroso.

Quando examinamos um paciente com suspeita, o primeiro passo é a laringoscopia ou a endoscopia por fibra óptica. É um exame rápido, feito no consultório, onde uma pequena câmera nos permite visualizar cada dobra da mucosa em busca de irregularidades. Se encontramos algo suspeito, a biópsia é o nosso “padrão-ouro”: retiramos um fragmento milimétrico para que o patologista confirme se aquelas células perderam sua identidade original. A estratégia cirúrgica e a preservação da função Antigamente, a cirurgia de cabeça e pescoço era vista como algo puramente ablativo — ou seja, focada apenas em retirar o tumor. Hoje, minha filosofia de trabalho é outra. O foco está no binômio cura e funcionalidade. Graças aos avanços das técnicas minimamente invasivas e da cirurgia reconstrutiva, conseguimos remover o carcinoma com margens de segurança e, no mesmo ato, reconstruir a área utilizando retalhos de tecido do próprio paciente.

Em casos de tumores na laringe, por exemplo, o monitoramento nervoso intraoperatório nos ajuda a preservar as cordas vocais. Se o tumor exige um tratamento combinado com radioterapia ou quimioterapia, o planejamento é feito em conjunto com uma equipe multidisciplinar. O objetivo é garantir que, após o tratamento, o paciente consiga retornar ao seu convívio social, conversando com a família e saboreando suas refeições. O olhar atento salva vidas O diagnóstico precoce não é apenas um conceito teórico; ele é o divisor de águas entre um procedimento simples e um tratamento complexo. Se você notar uma mancha na boca, um nódulo no pescoço que não regride ou uma mudança persistente na voz, não espere a dor aparecer. A dor, infelizmente, costuma ser um sinal tardio no carcinoma epidermoide.

Dr Stefano Fiuza linfoma de hodgkin quais são os sintomas​